quinta-feira, 5 de abril de 2018

• No xadrez

Eu, um cidadão rasca, conheci - pela primeira vez na minha pacata vida - na passada terça-feira o que é estar no xadrez.

No dia anterior, neste ligeirinho viver de faz-de-conta, tinha vestido a pele e a bata limpa de um cirurgião. Depois, foi o fato-macaco sujo de um presidiário.

Isto passou-se numa velha e decrétita penitenciária desactivada, a cair oas bocados, o Estabelecimento Prisional de Santarém. Foram apenas umas horitas. Mas deu para perceber bem o que são existências humanas arrecadadas atrás de muros altos e longe dos olhares dos cidadãos livres que passeiam na rua do lado oposto desses muros.

Dias, meses e anos que se devem perder inutilmente, de tantos seres humanos. Tudo isto sujeito a uma ordem pública que sobre todos nós exerce o seu poder que o rebanho, digo a sociedade, não questiona.

Bom, mas estas singulares experiências - que me são proporcionadas por esta minha livre auto-gestão de um viver como folha caída ao vento - são extremamente prazeirosas. São uma óptima fuga a uma rotina arrebatadora. 

São aprendizados muito benvindos, que me fazem reflectir e crescer.

Mais uma vez, toda esta "situação" foi ao serviço da Plural, para a telenovela “Jogo Duplo”, da TVI. 

O meu obrigado a todos que me dão estas oportunidades de despir a minha pele e vestir outra, de brincadeirinha e sem consequências de maior gravidade e prejudiciais de uma tranquilidade zen, que sempre persigo com afã.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

• Um aplauso à criatividade

Hoje venho aqui fazer um necessário aplauso à criatividade. 

Digo necessário porque é mister incentivar a criatividade quando esta aparece na política. Os políticos são hoje em dia tão previsíveis, tão dentro da linha, tão fiéis ao que os correligionários de cada partido esperam e querem ouvir… Ao que estão habituadíssimos a ouvir.

Aplaudo este cartaz do Bloco de Esquerda, que se foca nessa suposta crise que a gestão privada do serviço público dos correios terá criado. Não há aqui um discurso diferente, certo. Mas há algum humor. O que é raríssimo. E não doentio.

Para que haja uma referência do antes e do depois, reproduzo aqui ao lado o logotipo oficial dessa empresa outrora pública, que anacronicamente ainda se denomina de CTT, Correios Telégrafos e Telefones.

Um dia no Aeroporto de Lisboa, ao despedir-me de uma boa amiga minha de volta para a sua Hong Kong natal, eis senão quando ela quis despachar um postal pelo velho snail mail. Ao chegar perto do balcão, exclamou ela com algum espanto:

- Are you sure this is actually the post office?… Seems a lot like just another souvenir shop.

E ela tinha toda a razão. Não parecia muito uma típica estação de correios de outros tempos. Havia ali à venda livros, artigos de artesanato, de luxo, etc… E hoje nos correios temos também um serviço de banco, uma seguradora e o que mais vierem a inventar para ocupar os seus funcionários.

Dito isto, estou-me nas tintas para o que quiserem fazer deste bem antigo serviço público. Por mim, podem fechar todas as estações de correios. Já há muito que não sou um cliente assíduo. O tempo em que tinha montes de penpals de todas as partes deste mundo com quem trocava correspondência às carradas findou há mais de 20 anos.

Mas o cartaz desta campanha do BE está giro!… Tá bué giro, mesmo.  Arrancou-me um breve sorriso quando o vislumbrei assim de repente, caminando por la calle.  ;-)
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Nota: para ouvir uma banda sonora original relativa a este post, clicar aqui. Verão que não tem nada a ver, é verdade… Mas numa pesquisa rápida no YouTube não encontrei nenhum tema musical relevante dedicado a “post office” ou a “correios”. E esta canção tradicional tunisina fica no ouvido e eu queria partilhá-la, à viva força.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

• Shithole countries

“Why are we having all these people from shithole* countries come here?” 

Este foi o alegado e singular input que Donald Trump terá escolhido fornecer para a discussão. É bem plausível, condiz na boa com o seu perfil de incendiário.

Não seria difícil esclarecê-lo, usando o seu próprio estilo. Era só confrontá-lo com isto:

“Well, in the first place, because actually they are indeed shithole countries. So, people need to leave them. And either we welcome some of these people to our country, the United States of America, or we help these countries to stop being shitholes, so people won’t leave them.

And by the way, people from not so much shithole countries, like Norway, won’t be tempted to come to America, even if we invite them. it’s useless. They are way much better in their own countries. America, if you ask my opinion, starts to stink nowadays…”

Eu vivo num país que não se livra de eu o achar um país de merdelim. Para não ser muito duro, ou um trumpiano básico, e dizer merda. Mas será que eu o trocaria pelos USA?…

Nááá!… Pelo Canadá, talvez. Pela Suíça, provavelmente. Pelo Japão, por uns tempos, sim. Pelo norte de Itália, porque não? Pela Tailândia, apesar de tudo, vá lá. Pela Costa Rica, por ser um dos países mais felizes do mundo. Mas pelos States, não.

Podemos até considerar que os Estados Unidos da América não são um shithole country. Mas uma larga maioria dos seus cidadãos tem uma vida de merda. 

Uma vida tão miserável em que um consumismo desenfreado, absurdo e induzido os empurra nefastamente para alguns escapes, como é exemplo o pecado da gula. E eles engordam que nem porcos de suinicultura intensiva. 

Até os seus cérebros se tornam adiposos. E, consequentemente, estúpidos. Maleáveis. Permeáveis a todos aqueles - parecem ser mais que as mães... - chico-espertos yankees que sabem que em terra de cegos quem tem olho é rei e sobretudo sabem usar esse facto para engordar a sua conta bancária à custa dos outros parolos.

Pior é que com a sua inata ganância, querem sempre impingir as suas tretas** aos outros,.Começando por nós, europeus, por nossa triste sina. E alguns de nós, que deviamos ser mais inteligentes, até engolem muito passiva e inconscientemente as patranhas desses mucho greedy sofistas do novo mundo...

A quase todos a circunstância de terem o presumível privilégio de haver nascido e viver naquela que todos aceitamos como sendo a maior potência mundial cega-os. E aquela infeliz história do “America first” ainda vai ditar a sua queda a longo prazo. 

Afinal, para o bem ou para o mal, partilhamos todos este mesmo planeta. Esta casa comum. E se um dia o resto do mundo vos virar as costas e vos deixar a falarem sozinhos, depois não te queixes, America!...
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* Definition of “shithole”, by Oxford Dictionaries: an extremely dirty, shabby, or otherwise unpleasant place (noun). 

Confere. Bate certo. Não deve andar longe da verdade para certos países. A bem da humanidade, deviamos todos ajudar tais países a sair dessa condição. E vamos deixar de os chamar assim. Não é bonito. Para além de que deviamos olhar um pouco mais para dentro das nossas próprias fronteiras.

** Tretas essas a que eu costumo apelidar de "americanalhadas".

domingo, 31 de dezembro de 2017

• A passagem de ano

Não há um “Antes e Depois” na noite de passagem de ano. Nada muda. Absolutamente nada.

É só uma paragem forçada. É um virar de folha de calendário igual ás outras todas mas que queremos, por convenção, que seja diferente de todas as outras. À força toda.

Os verdadeiros “Antes e Depois” tanto podem acontecer no dia 31 de Dezembro como no dia 1 de Janeiro como em todos os outros 363 dias do ano.

Um grande incêndio, a descoberta de uma nova mina de ouro ou diamantes, um terramoto avassalador, a definitiva cura ou erradicação de uma doença, um tsunami diluviano, uma revolução social, o nascimento de um novo Messias…

Tudo isto pode sobrevir em qualquer altura. O destino não espera por datas específicas determinadas pelos humanos. 

E por falar em nascimentos… Cada nascimento, happening feliz, implica anos mais tarde uma morte a mais, evento infeliz.

Todos ouvimos no dia 1 de Janeiro as notícias de quem foi o primeiro bebé do ano. Mas já alguma vez ouviram uma vez só algum noticiário que nos informasse quem foi o último homem a falecer o mais perto possível da meia-noite dum dia 31 de Dezembro? A última morte do ano que também morre num segundo?…

Ninguém desejará ficar em último lugar nessa corrida. Até porque ninguém dará pela sua partida. São os falecidos em que menos gente repara. Estamos todos distraídos a olhar fixamente para os ponteiros do relógio. Que não se mexem de forma nada diferente do resto do ano, afinal de contas…

Nada muda nesse segundo em que se atingem as 24 horas de 31 de Dezembro e começa um novo ciclo com o mesmo número de horas, exactamente igual.

Mas as pessoas querem todas parar para sonhar uma beka. Deixemo-las pois festejar e crer na ilusão que algo vai mudar sem a sua própria acção e determinação. Que haverá algum dedo divino mais atento ao calendário, quiçá.

O pior é que os actos divinos costumam ser caprichosos… Tanto dão para um lado como para o outro. Tanto nos podem bafejar com alegria desmedida como nos dar provas que shit happens, too. De quando em vez. E em grande.

Para mim, tudo mudou, há dois anos atrás. Não no dia primeiro do ano mas quase a meio desse 2015. E ainda tive de esperar o princípio do último trimestre para essa mudança se materializar.

Portanto, o “Antes e Depois” de cada um de nós não tem de ser obrigatoriamente na noite de passagem do ano.

Mas a malta quer toda fingir na vigília dessa madrugada que vai correr tudo bem daqui para a frente, não é?… Vamos lá então fingir, pois!…  

"Populus vult decipi, ergo decipiatur", já lá dizia Quintus Aurelius Stultus, senador romano...

Eu só queria mesmo - já agora que é noite de formular desejos - era ter esse alguém a meu lado com quem mais gostaria de partilhar uma flute de champagne. Ou um belo dum hot glõgi.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

• Per una Catalunya lliure

Vai ser na próxima quinta-feira, dia 21, que um novo 1º de Dezembro pode ter uma reprise. E desta vez sem ser necessário defenestrar um qualquer Miguel de Vasconcelos.

Menos mal. No anno da graça de Mil Seiscentos e Quarenta não havia cá referendos. Eram tempos mais bárbaros. Hoje as coisas podem resolver-se com papelinhos enfiados em urnas.

Ainda que actualmente possamos parecer mais civilizados e sobretudo democráticos, persistem contudo umas pequenas bizarrias. Como delitos de opinião poderem condenar um homem a 30 anos de cadeia no país aqui ao lado de nuestros hermanos, por supuesto.

Não entendo como é possível que a lei fundamental de Espanha, a sua constituição, blinde a possibilidade das diferentes nações que a compõem, qual mosaico, julgarem unilateralmente acerca do seu destino. Como é que tal regra foi aprovada?… Como é que não a contestam hoje?…

Eu ao menos não ouço essas vozes, se é que existem. Nem essas lá em Barcelona, nem outras que deveriam clamar aqui em Lisboa pelo seu apoio por uma Catalunha livre… Então nós tivemos direito ao nosso 1640, à nossa restauração da independência face a esses reis Felipes merengues e não se ouve nenhum tuga dizer de sua justiça que os catalães deveriam merecer o mesmo?…

Só se ouve por aí alguns lusos hipócritas rosnar que uma Catalunha independente seria prejudicial para a saúde da economia!… Dessa maldita economia que tanto nos determina.

E será que isto seria mesmo mau? E se a seguir fosse o País Basco, a Galiza, a Andaluzia e outras mais nacionalidades mantidas em letargia por Castela? E se Espanha se transformasse numa nova Jugoslávia que implodisse?

Num tal status quo as várias novas nações peninsulares olhariam para Portugal como o mano mais velho que se emancipou há mais tempo. E as relações comerciais e culturais entre os diversos povos da Ibéria sofreriam um boost fantástico.

Mas é claro que se algum importante membro da nossa sociedade alfacinha - sobretudo se algum político, no poder ou na oposição - se pronunciasse a favor de Carles Puigdemont, logo o Rei de Espanha actual teria de imitar o seu progenitor gritando de ladecos para trás das suas espaldas “¿Por qué no te callas?”.

Puigdemont nunca se poderia ter exilado aqui sem nos comprometer com este outro Rey Felipe do séc. XXI. O homem teve mesmo de ir para a Flandres, claro. Que por acaso também já soube o que era estar sob o jugo espanhol…


Eu cá sou apenas uma reles formiguinha. E por isso me permito escrever aqui neste pequenito púlpito que eu sou per una Catalunya lliure.

E que um dia num futuro não muito longínquo a terra do meu avô paterno - que eu nunca conheci, pois deixou este mundo quando o meu pai tinha a provecta idade de nove anos -, Santiago de Compostela, também tenha o seu destino apenas nas suas mãos.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

• 100 anos

A Oktoberfest realiza-se em Setembro… E a Revolução de Outubro comemora-se a 7 de Novembro. Vá-se lá perceber porquê…

Bom, mas o que importa é que fez 100 anos ontem que o mundo começou a mudar. Nascia uma bela utopia. Que uma vez mais a condição humana haveria de matar. Como sempre fará com todas as utopias.

Rascas que são todos os humanos. Todos. Mesmo os que fazem revoluções que mudam tudo aqui debaixo do céu.

Ela e eu nascemos cerca de meio século depois. Quando a utopia liderava os seus numa intrépida corrida desta humanidade, para a levar ao espaço. Numa época em que estávamos em campos opostos e praticamente incomunicáveis.

Se a utopia não tivesse sido derrubada por terra talvez nós dois nunca nos viéssemos a encontrar nesta presente vida.

Ainda gostaria um dia de ouvir mais histórias que ela contasse dos tempos em que a utopia determinava a sua vida. Como eu contaria como foi a minha infância e adolescência sob um outro regime que também não me deixaria crescer para ser absolutamente livre.

Ou tão só livre ao ponto de como somos ambos livres hoje em dia. Livres de dizer o que quisermos e de ir onde quisermos.

Que a utopia dela se cumpra. Seja lá a que for.

Eu ainda ando à procura de qual será a minha.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

• Um dia rasca

15 de Outubro. O dia nacional dos acendimentos. Que dizem foram cerca de 500. Num só dia.

A foto que vemos acima foi tirada por um bombeiro. Do terraço do seu quartel de bombeiros voluntários em Vieira de Leiria.

Quando li num jornal uma notícia ilustrada com esta foto, perguntei-me o que estaria um bombeiro a fazer no seu quartel em vez de estar a combater as chamas que avistava ao longe? Vi então que relatava-se que este bombeiro - Hélio Madeiras de seu nome, para atribuir os créditos à foto - teria estado justamente a tentar conter o fogo quando entretanto soube que seria destacado com um grupo de seus camaradas para ir acudir a outro grande incêndio em Vouzela, a cerca de 150 km da sua terra!… Como se isto fizesse grande sentido…

Terá sido então no intervalo entre um fogo e outro e regressado ao quartel que teve um momento para guardar para a posteridade a desgraça que se abatia sobre o Pinhal de Leiria.

Noutro jornal com uma outra notícia com a mesma foto, o seu nome de família perdeu o “s” final, passando ao singular, e tomou já outra categoria profissional: a de um “recuperador salvador da Autoridade Nacional de Proteção Civil”. Seja lá o que isso for…

Esta foto tornou-se viral nos media de todo este mundo que quiseram dar a nova do inferno na terra em que este pequeno país á beira-mar plantado se tornou naquele malfadado dia.

Duas semanas depois, movido por uma curiosidade mórbida, tornei-me um turista de terra queimada. 

Tinha estado justamente na Praia da Vieira de Leiria no último dia do mês passado de Setembro e no primeiro dia deste. A gozar um curto período de paz interior. A reflectir sobre o sentido da minha vida e a postá-lo num dos meus blogs. Nesse lugar muito caro para mim.

Quis voltar lá para ver a extensão da destruição. E para me garantir que tudo se há-de erguer de novo.

Confio muito que de facto tudo se há-de erguer de novo. O negro vai dar lugar ao verde uma vez mais.

Só espero é que a rasquice e estupidez que grassou naquele dia 15, essa não volte a existir alguma vez mais.

Estupidez que por vezes podemos pensar que é um exclusivo ou uma característica muito ruga. Mas então como explicar que na poderosa Califórnia também tenham deixado que ardesse tanta floresta e morresse taxas vítimas como aqui?…

Que não tivessem conseguido salvar algumas das mais abastadas casas vinícolas deste planeta na famosa Napa Valley?…

E na Galiza!… E na Lombardia também houve incêndios nesta época em que não era suposto a natureza castigar-nos.

Mas enfim… Há lá algum momento que seja mais próprio para o castigo da estupidez humana?…