sexta-feira, 24 de março de 2017

• O essencial

E os seres humanos estão a perder de vista o essencial.

Isto é notório nas suas acções e palavras. Enquanto uns grandes se descuidam a dizer merdas, outros, pequenos, acreditam que têm por missão fazer merda.

Outros há ainda, a esmagadora maioria, que só querem tratar das suas vidinhas. E se alguma merda - leia-se contratempo - desvia estas formigas do seu carreiro alguns metros ou segundos daquilo que lhes é habitual, em vez de olharem o lado positivo - um súbito intervalo nas suas chatas rotinas - só se queixam de consequências menores do incidente entretanto ocorrido.

Os seres humanos estão a perder a capacidade de ver com o coração. Estão a esquecer de amar.

E não é só de se amarem uns aos outros. É de amarem também as pedras no caminho, essas sementes de castelos.

Sinto-me hoje a divergir tanto e cada vez mais da raça humana, em cujo seio nasci. E se eu também estou a deixar de amá-la, queria ao menos ainda encontrar algum elemento como eu a quem amar. Para não ter só amor próprio.

Eu já amei a alguém. Julgo que ainda amo a esse alguém. Mas hoje amo sozinho. O meu bem-querer deixou de ser essencial, como já foi. E é preciso viver e deixar viver.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

• O ano do Galo

Já lá vai mais de uma semana. Foi no passado dia 28 de Janeiro do “nosso” Calendário Gregoriano que os povos do chamado Império do Meio entrou no ano do Galo.

Bom, isto é um evento que se repete de 12 em 12 anos. Nada de muito transcendental até aqui. Mas houve algo em que os chineses passaram a reparar um pouco mais desta vez…

A região administrativa especial de Macau, desde o final do século passado sob a alçada da República Popular da China, absorveu e virtualmente tornou como seu um símbolo deste país onde nasci: o Galo de Barcelos.

Nos últimos anos tornou-se um souvenir assaz procurado entre os turistas que visitam Macau.

Entre estes visitantes a grande maioria é originária da mainland China. E esta gente redescobriu agora este curioso galo feito de barro e desatou a comprar esta peça de artesanato como se fossem pastéis de nata quentinhos.

Será isto um bom presságio para este ano na Lusitânia?… Oxalá que sim. Mas mesmo esses eventuais bons ventos não me impedirão, porventura, de trocar estas paragens por outras do longínquo Oriente.

É lá que prevejo fazer um reset à minha existência e reiniciar uma cidadania de forma sã e útil.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

• La mort de Louis XIV - o filme

Est-ce vraiment nécéssaire?”, perguntava o Rei-Sol, Louis XIV, a dada altura neste filme a que em boa ou má hora escolhi gastar o meu tempo indo assistir…

Acabava de lhe ser proposto um projecto para a construção duma ponte, algures no oeste da França. O arquitecto inglês que defendia esse projecto afirmava que esta dita ponte deveria ter uma fortificação em cada um dos seus extremos, para a segurança do acesso à travessia da mesma.

A coisa só por aqui já bem que começava a cheirar a esturro… Mas o principal mentor da urgência da construção desta ponte - um nobre que se presumia ser frequentador assíduo da corte do Rei-Sol e o responsável pela escolha daquele arquitecto inglês - ainda quis acrescentar mais um argumento para que o rei percebesse que havia uma janela de oportunidade para a feitura daquela obra.

Esse argumento não era mais do que isto: o fornecimento da pedra, matéria-prima para aquela obra, já estaria assegurada e a um preço barato. Só que era preciso transportar essa pedra do rio Nilo para França. E para esse custo adicional era premente desbloquear verbas, algo que só o Rei poderia fazer.

Ora, o Rei estava já na curva descendente dessa decadência que o haveria de conduzir em passo algo acelerado para o seu último suspiro. Mas ainda lhe restava alguma lucidez. E portanto, protelou a sua decisão final sobre o assunto.

E eu questiono-me e reparo… Que espantosa ironia!… Este filme quis expôr como é que acontece - sempre aconteceu… - assim tanto esbanjamento de fundos públicos. Mas para a feitura deste mesmo filme também alguém teve de convencer outro alguém a desbloquear fundos públicos!!!…

Eu abomino o ritmo cinematográfico frenético - às vezes a roçar a parvoíce - das grandes produções de Hollywood. Mas ritmos demasiado lentinhos também não me divertem nadinha.

Ok, vão-me dizer que aquilo é arte. Que tem de ser totalmente descomprometida com qualquer noção de entretenimento. Que não tem de entreter mas ser superior a nós todos.

Balelas!… Caca de boi*!… É que se fosse só as cenas e a sua interpretação pelos actores a arrastarem-se à velocidade de preguiças em suposta hibernação ainda vá que não vá!… O pior é que…

O pior é que 99% das cenas do filme passam-se sempre no mesmo cenário. O quarto onde o Rei mal se levanta da cama. Excepto a primeira cena, que é um exterior, como mostrado na foto ao lado.

E tudo é filmado com aquela iluminação bem fraquinha, bem pobre, que desperdiça todo o trabalho de guarda-roupa e caracterização de actores em que se terão investido horas e horas a fio para nada!… E como tempo é dinheiro… 

Mas em defesa da arte há que afirmar que isso é intencional. Para calar a crítica de qualquer ignorante como eu. Ou de inocentes miúdos que são os únicos a ver e no mesmo momento dizer que o Rei vai nu.

Enquanto me martirizava forçando-me a assistir a todo o filme, do princípio ao fim deste, só me vinha ao pensamento este desabafo: “Volta, Manoel de Oliveira, estás perdoado.”.

Eu mexo-me nos bastidores da sétima arte. Eu vejo como as coisas se passam. Eu vejo o desperdício constante de recursos e de talentos em façanhas tão vãs e efémeras.

Estou mesmo a ver técnicos de iluminação e fotografia a montar no décor inúmeras baterias de lâmpadas potentes, para depois esbater a sua luz a um mínimo, com carradas de filtros difusores. Why they put there so many light sources in the first place, I ask myself???…

Estou mesmo a ver a produção deste filme a arrendar espaços e mais espaços para as filmagens, para depois só se aproveitar na mistura final as cenas de um único set, quase exclusivamente.

Estou mesmo a ver exércitos de equipas técnicas e de figuração arregimentados para esta produção, para depois do sumo bem espremido não se aproveitar quase nada do esforço e do suor de todos e cada um destes.

Eu mesmo dei o meu tempo durante um dia inteiro e mais uma boa parte de outro para a feitura de um filme, de seu título “Zeus”. E a somar ao meu tempo há também o tempo de responsáveis pelo guarda-roupa e caracterização que se ocuparam afanosamente de mim. Para tudo isto se resumir à minha aparição durante um ou dois fugazes segundos. E vá lá, vá lá…

Também sou daqueles pretensos cinéfilos - ou cinerastas, como uma amiga minha diz - que assistem em sala aos filmes projectados até ao fim. Até ao final de todo o genérico e ficha técnica desenrolados. Até as luzes da sala estarem ligadas na máxima potência, convidando ao abandono do recinto.

Vejo sempre aquelas listas enormes de nomes que foram envolvidos na produção daquela peça da dita sétima arte e invariavelmente pergunto-me, como Louis XIV… Est-ce vraiment nécéssaire? Toda esta gente?… Não se podia ter dispensado o concurso de alguns deles, em nome de algum racionalismo? 

Era mesmo preciso ir comprar a pedra ao Nilo? E construir além da ponte duas fortificações?…

Quis-se fazer alguma coisa para comemorar os 300 anos da morte do Rei-Sol, o monarca que reinou durante mais anos uma nação grande da história universal como a França. E a montanha pariu este rato.

E são sempre assim, afinal, as empresas dos humanos. Caríssimas e vãs. Desde as faraónicas pirâmides do Egipto até ao magnifique cinema de autor premiado em Cannes. Como caríssimas e vãs foram também existências que depois glorificamos. Como a de Louis XIV. E de tantos outros que tais…

E já podíamos todos ter aprendido tanto, ao longo do caminho que a humanidade já percorreu… A pobreza e a miséria já podiam ter sido erradicadas. Como a varíola o foi.

Ocorrem-me agora mesmo - nem sei se bem a propósito, mas enfim, eu também digo que sou um artista... - as palavras de Eugénio de Andrade, no seu poema “Não é verdade”…

Não é verdade tanta loja de perfumes, 
não é verdade tanta rosa decepada, 
tanta ponte de fumo, tanta roupa escura, 
tanto relógio, tanta pomba assassinada.
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* Tradução literal do comum vocábulo “Bullshit”, tão empregado entre os yankees.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

• Obrigado

Acho que não me enganarei muito se disser que ele olharia com um sorriso a minha cidadania rasca…

Ontem fui ao Mosteiro dos Jerónimos ver o seu corpo em repouso. Já não entrava naquele claustro desde que era um teenager em visita de estudo. E ali ontem percebi que tenho de permitir mais amiúde que esses viajantes que até ali venho trazendo entrem e se sintam tão embasbacados como eu fiquei ao rever o lugar depois de tantos anos.

Com as suas cerimónias fúnebres antes da ida para o cemitério a terem lugar nos Jerónimos, ele deu-me, para além de outras mais essenciais, uma derradeira oferta. Que foi a de poder entrar naquele monumento tão visitado por forasteiros, sem pagar o balúrdio que a estes últimos - e aos nativos desta Olissipo, também… - exigimos.

No velório no antigo refeitório do mosteiro ele lá estava naquela pose dos grandes entre todos nós. Levou-me a pensar no momento que todos os povos têm o seu Mao Zedong. Ou o seu Kim Il-Sung. Ou o seu Enver Hoxha. O seu querido líder, enfim.

Só que ele não era dessa linhagem de chefes de estado. Era mais um Olof Palme. Ou um Nelson Mandela. Um bacano. Um gajo même fixe.

A ele devo o poder estar a escrever estas linhas sem recear o que a ele fizeram. Isto é, engaiolaram-no.

A mim isso só virá um dia a acontecer se isto ainda der um grande virote para trás. Mas eu acredito que vidas como a que ele viveu e nos mostrou como viver não permitirá que tal suceda jamais, doravante. É esse o seu grande legado para todos nós.

Obrigado, Mário. Descansa em paz agora, que creio que nós todos aprendemos a tua lição.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

• O tal de PERES

A A.T., a nossa querida Autoridade Tributária tem desde Novembro último um chamado “Programa Especial de Redução do Endividamento ao Estado”. Como isto é um nome comprido, resolveu-se abreviar a coisa numa singela sigla, que passou a designar-se… PERES.

Que amorosos e atenciosos que estes senhores parecem sempre querer ser comigo, caramba!… 

Bom, mas isto até pode ser premonitório de alguma coisa. Até pode ser um sinal de que devo estar num bom caminho, na solitária e surda-muda luta que venho assumindo contra estes cabrões.

Em Portugal tem havido, nos últimos anos, devido às políticas de austeridade, um grande crescimento de dívidas ao Fisco e à Segurança Social”, afirmou o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Isto será verdade mas não é tudo.

Era preciso dizer que este tal Plano PERES não deveria ser assim tão “especial” mas antes a regra comum. 

Pagar os juros de mora, as coimas e demais custos administrativos e o mais que os filhos da mãe da A.T. inventam e que ampliam qualquer pequena dívida fiscal para quantias astronómicas é que deveria ser considerado anormal e inaceitável. É que nem os maiores agiotas deste mundo teriam a vergonha de cobrar tais valores aos seus devedores!…

Graças a toda esta porra… Ah, que vontade que se me dá de trocar de país para sempre…

Já passei inclusivé ultimamente a usar na lapela do meu blazer azul escuro algo que me remete para outras paragens. A primeira de todas as bandeiras que esta lusa nação já conheceu. Semelhante à daquele país setentrional pelo qual me perdi com alguma paixão. 

Nunca me senti imbuído do enraizado espírito tuga, de tão torpe que este é. Sempre me dei melhor com forasteiros do que com os meus toscos conterrâneos. Também há destes últimos de valor, é certo… Mas onde andam eles?…

Bom, mas isso agora não interessa nada, como soe dizer a dona Teté, estrela dessa pantalha mais tuga que existe. Afinal, é Natal, ó gentes!...

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

• O país onde nasci

Como eu te compreendo, Mafalda!…

Creio que não invejo os extraterrestres que nasceram em mundos mais evoluídos do que a nossa Terra. Ainda não chego a tanto. Mas a uma escala menor, por vezes me questiono porque raio fui logo nascer neste atarracado país.

Já aqui neste blog, num dia relativamente recente, me declarei um Desenraizado. Estou cansado de aqui quase sempre ter andado a gastar o tempo da minha presente existência. E sobretudo desta minha Olissippo.

Entretanto, a crescente tristeza devida ao meu viver por cá, pela capital deste Portugalito, tem de conviver com a desmedida alegria dos que a vêm visitando nestes últimos tempos… E eu tenho logo por missão actual de lhes potenciar essa alegria de aqui estar.

Sente-se de facto que os turistas que nos visitam em Lisboa transpiram uma felicidade inusitada por aqui desembarcarem. 

Ele é a luz de Lisboa, que também maravilhou Arpad Szenes, mal aqui pôs os pés.

Ele é a gastronomia, que aqui ainda permanece genuína, autêntica e não industrializada. Ou ao menos não tanto como nos países europeus ditos mais evoluídos que o nosso.

Ele é um património histórico que ainda consegue ser bem rico e cativante, porventura um pouco mais que em outras paragens, também muito demandadas pelas mesmas hordas de turistas na idade da reforma que aqui desaguam.

Ele é as nossas gentes, que sabem quiçá sorrir mais do que nórdicos, teutões, gauleses e até do que os nossos hermanos ibéricos. E genuinamente.

Ainda por cima, somos ajudados pelo facto de sermos cada vez mais cosmopolitas. De termos em Lisboa comunidades de todas as partes deste mundo, que aqui tentam subsistir, tal como os locais, à custa desta actual maré alta do turismo português.

E depois, além de Lisboa há todo o resto da paisagem. Lugares de paz absoluta onde tenho levado alguns viajantes dos quais sou o seu guia e anjo da guarda. Como por exemplo, Constância. Onde o nosso grande vate Luís Vaz de Camões só pode ter sido muito feliz, sem qualquer dúvida!...

Nestas duas fotos aqui junto vemos o costumeiro Largo do Pelourinho, quase obrigatória presença em muitas cidades, vilas e lugarejos datados da época medieval desta pachorrenta Lusitânia.

Lugares encantadores, como esta pequena vila onde os rios Tejo e Zêzere se agrupam, que eu ando por aí a mostrar a tanto forasteiro, eu queria era mostrar a ela um dia…

Talvez depois de ver com os olhos dela o que já conheço como a palma da minha mão não me sentisse tão desenraizado.

Além disso, há uma dívida de gratidão que sinto ter com ela. Porque ela muito generosa e carinhosamente levou-me pela mão a ver todas as principais atracções turísticas de Helsinki e Tallinn. Um dia, graças a tal passagem de testemunho, quero ser um guia nestas duas urbes. Com a mesma qualidade com que o sou na minha Ulisseia.

domingo, 30 de outubro de 2016

• Mais uma!...

Mais uma provação, mais uma experimentação.

Para além de já ter passado diversas vezes por vicissitudes como a de recorrer ao suposto apoio de serviços sociais do estado em situação de algum desespero - como neste desemprego crónico que se me colou à existência presente neste país - agora vou fazer um pedido de insolvência pessoal.

A ver no que isto dá. Continuo a ser aquele velho case study.