quarta-feira, 18 de julho de 2018

• Paralisia

Já deixei registado noutro blog meu que fui acometido duma ligeira moléstia, uma dita “paralisia facial idiopática”. Há duas semanas atrás.

Uma coisa que é uma beka chata mas que passa com o tempo. Apenas há que ser paciente. E eu assim tenho feito e faço, paciento.

E enquanto paciento, aqui dentro da minha concha, tenho tempo para observar o mundo. Um pouco mais atentamente.

E o mundo todo também parece ter estado sofrendo duma paralisia.

Paralisado e suspenso o mundo se quedou acerca da sorte dos competidores nesse evento maior que foi o Campeonato do Mundo de Football na Rússia.

E até eu me deixei alienar, apesar de pouco procurar ligar ao que se passa no ludopédio globalizado… Porra para este poder que o football tem sobre as nossas mentes fracas!… Ou talvez só a minha…

Já agora, Спасибо, Россия. Jolly good show you have performed. Organização impec!...  ;-)

Paralisado e suspenso o mundo se quedou acerca da sorte de doze miúdos e de um adulto que os deveria orientar mas que se deixaram aprisionar numas entranhas profundas da mãe-natureza. Falta de respeito à nossa mãe que esta não perdoou. 

E enquanto o planeta inteiro ficou ansioso do desfecho da operação de salvamento dos petizes, tivemos que gramar com reportagens televisivas, arrastadíssimas de horas e horas contínuas, que não deixavam espaço a mais nenhum outro acontecimento. Recheadas de comentários de experts de mergulho em grutas que repetiram até á exaustão banalidades. Impulsionados por repórteres que já não sabiam mais o que perguntar e repetiam as mesmíssimas questões vezes sem conta também.

No meio disto tudo, a morte de mais de cem cidadãos de um país altamente desenvolvido devido a uma catástrofe natural, inundações fora do comum, passou em branca nuvem!… 

Lição a tirar desta calamidade: a civilização nada pode ainda contra a natureza. Nem aqui no meu pobre Portugalito, nem na Califórnia, a sua prima de famílias ricas, nem no expoente tecnológico do Japão. 

Voltando aos nossos rapazes futebolistas siameses, tanto se noticiou que estes queriam já no hospital tirar a barriga de misérias com um manjar local que se chama “phad ka pao” que até a mim me apetece provar um dia essa exótica iguaria.

Fica gravado na minha to-do list. É uma coisa simples, carne picada frita numa sertã e salteada com manjericão, acompanhada com arroz branco. Mas é capaz de ser bão.

Paralisado e suspenso o mundo se quedou também acerca de quaisquer novas diatribes e manobras de marketing político do presidente da nação mais poderosa desta Terra. 

E parece que ninguém consegue fazer ouvir a sua voz de contraditório nos media!… Para dizer que o rei vai nu. Que Trump é um saco cheio de coisa nenhuma. Um pastel de vento.

Ainda anteontem o bom do Donald e o bacano do Vladimir resolveram marcar um rendez-vous no quintal do vizinho deste último. E lá foram desassossegar os coitados dos pacatos dos habitantes de Helsinki. Para quê?… Que sumo espremido é que saiu desta tão alardoada importante cimeira dos dois maiores líderes mundiais?… Alguém me diz?…

Bem, e agora?… Quando é que vamos sair deste torpor?… Será que vamos ter de esperar pela costumeira rentrée?… Ou esta silly season deste ano vai eternizar-se?… Já não me espantava nada. Os deuses estão a lograr paralisar-nos. E isso até pode não ser mau de todo.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

• O outro ópio do povo


"A religião é o ópio do povo” 

Assim sintetizou Karl Marx um pensamento que já vinha sendo dito por outros filósofos alemães, tais como Immanuel Kant. E Vladimir Ilyich Ulyanov, imortalizado pelo seu nickname Lenin, levou esta máxima a peito. Destruindo igrejas.

Hoje, Vladimir Putin vê uma outra forma de alienação das massas. Um outro ópio. Que sente poder trabalhar em benefício da sua linha política. E constrói estádios de football.

Eu admiro Putin, o homem, não o político. E não queria nunca que eu fosse visto por ele como um elemento inamistoso contra ele ou o seu país, a grande Rússia. Contra o seu país nunca seria. Mais do que Putin, eu sempre admirei a alma colectiva do poco russo.

E por deformação profissional antiga, do tempo em que eu era em exclusivo um designer gráfico na área do advertising, também ou mais uma vez, acho admirável e extremamente elegante o grafismo criado para este Mundial.

Por último, por causa duma vocação profissional falhada, a arquitectura, carreira que não cursei nem segui, admiro a criatividade dos estádios novos concebidos para esta competição desportiva globalizada.

Eis abaixo a minha contribuição para este incontornável mundo do ludopédio. A divulgação de aerial views de todos os doze estádios palcos de partidas de football - ainda não vi em nenhum website uma colectânea de imagens como esta aqui... - que prometem serem as mais belas de todos os tempos.

Creio mesmo que os nossos bravos irmãos eslavos vão conseguir esse desiderato, essa façanha ilustre.
 
Luzhniki Stadium, Moscow
Spartak Stadium, Moscow

Saint Petersburg Stadium
Samara Arena
Kazan Arena

Nizhny Novgorod Stadium
Volgograd Arena
Mordovia Arena, Saransk
Ekaterinburg Arena

Rostov Arena
Fisht Stadium, Sochi
Kaliningrad Stadium

quarta-feira, 2 de maio de 2018

• #TeamSevak

I consider myself to be a citizen of the world. I don’t know if I’m really a true one, but I always try my best to become that way.

Saying about oneself that one is, in fact, a citizen of the world is although not enough. One has to find what is his place in this world. What is his main mission in life. Or missions. Some smaller ones than this greatest one.

These last few days and until the 12th of the current month I’m taking a break on what I could call “my normal life”. That is, if my life could even once be seen as something normal, let's say...

I’m currently a volunteer in the ESC, Eurovision Song Contest. This year, 2018, the thing is held right here in my once dear hometown, Lisbon.

My role is to be a “delegation host”. I have to give all the support I can to a certain country delegation, on their trips from or to the airport, hotel, venue, blue carpet* and tours that are previewed these delegations to do.

But what’s a delegation, one may ask himself?… To put it in a simple way, it’s the group of people each country brings to participate on this event.

I was slightly wishing and hoping to be chosen to be the host of these few countries… Estonia, Finland, Poland, Ukraine, to be precise. By this order of preference. And this is a long story to be told here and now.

But the universe or some divinities, in their good wisdom, put me side by side with these Armenian folks, that are all around and behind their somehow symbolic singer, a certain Mr. Sevak Khanagyan. Fine!...  :-)

They’re alright… They’re friendly people. Unpretentious. Looking at them, each and every one of them, they seem to try as hard as myself to be this ideal citizen of the world.

They can perhaps feel a little bit tense to be quite far away from their homeland, where nowadays the people in the streets of Yerevan are experiencing what they call the Velvet Revolution...

Sevak himself, as well, seems to be a fine guy, with the looks kind of like a brave cossack. And not at all a male diva**.

His peculiar song, Qami, in my opinion has a certain… power. Like an hymn. A gospel hymn.

Far from being like the typical song one can expect on this show. Perhaps the show with most viewers, on a worldwide basis, they say…

The typical song in this event, the Eurovision Song Contest, my experience says it’s usually a “dumb song”. Without any important message. Without feelings. With a choreography that tries to be as original, never seen before, as possible, at any cost.

Qami means “Wind”. Its lyrics can be read clicking here, in English and, originally, in Armenian, this so forgotten language.

As in last year winning song, there’s something in the lyrics that I would like to think it was written like if the composer knew how my past love life has been. 

“What’s the cost of a madman’s wounds
Your love has opened,
Imprisoning my existence within.”

If our good friend Sevak will reach the final, my hopes on mankind will be given an impressive boost.

I will pursue watching, since last year, this big event, the Eurovision Song Contest, with a different perspective.

And I think I will probably start to travel the whole world, to resume this perpetual search for my place on it.
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* This blue carpet thing is kind of a “walk of fame” on a carpet which is not blue but red, as in the Oscar. Go figure it out…

** I said so because divas don't have to be always of a female kind. There can be such things as male divas, as well.

To listen to the very obvious original soundtrack related to this post, just click here.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

• No xadrez

Eu, um cidadão rasca, conheci - pela primeira vez na minha pacata vida - na passada terça-feira o que é estar no xadrez.

No dia anterior, neste ligeirinho viver de faz-de-conta, tinha vestido a pele e a bata limpa de um cirurgião. Depois, foi o fato-macaco sujo de um presidiário.

Isto passou-se numa velha e decrétita penitenciária desactivada, a cair oas bocados, o Estabelecimento Prisional de Santarém. Foram apenas umas horitas. Mas deu para perceber bem o que são existências humanas arrecadadas atrás de muros altos e longe dos olhares dos cidadãos livres que passeiam na rua do lado oposto desses muros.

Dias, meses e anos que se devem perder inutilmente, de tantos seres humanos. Tudo isto sujeito a uma ordem pública que sobre todos nós exerce o seu poder que o rebanho, digo a sociedade, não questiona.

Bom, mas estas singulares experiências - que me são proporcionadas por esta minha livre auto-gestão de um viver como folha caída ao vento - são extremamente prazeirosas. São uma óptima fuga a uma rotina arrebatadora. 

São aprendizados muito benvindos, que me fazem reflectir e crescer.

Mais uma vez, toda esta "situação" foi ao serviço da Plural, para a telenovela “Jogo Duplo”, da TVI. 

O meu obrigado a todos que me dão estas oportunidades de despir a minha pele e vestir outra, de brincadeirinha e sem consequências de maior gravidade e prejudiciais de uma tranquilidade zen, que sempre persigo com afã.