quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

• Não sejam piegas!...

Foi na segunda-feira passada, ao final da hora normal de expediente, no hipermercado Continente do C. C. Colombo, nesta Ulisseia que aguarda a vez que a tragédia grega se abata também sobre nós. 

Depois de ter andado a tarde toda a preencher fichas de inscrição e a anexar CV's a estas, em candidaturas expontâneas a empregos nas depauperadas empresas que ainda não faliram na República Portuguesa, fui rematar o meu périplo a fazer umas compras de géneros alimentícios para encher a malvada ao jantarito.

Estou com uma amiga que ainda mantém o seu emprego mas que está a receber um rendimento salarial bastante mais encurtado neste ano aziago que só agora arrancou. E por isso se viu forçada a me pedir para a ajudar, emprestando-lhe uns trocados para adquirir com que comer e pagar algumas contas até ao fim do mês.

Foi essa minha amiga que reparou nela. Naquela velhinha com trajes andrajosos, que contava as moedas pretas na palma da sua mão, para se assegurar que poderia comprar uma sopita, daquelas que se vendem já cozinhadas e embaladas em recipientes plásticos selados. Um artigo de custo aproximado de 1 euro ou 2…

"Tudo somado, concerteza que não vai dar para cobrir as minhas despesas."... Era esta a infeliz frase alheia que ecoou na minha memória naquela altura.

Claro, não era a senhora velhinha que a pronunciava… mas podia ser muito bem ela a pensá-la. Decerto alguns reconhecerão que a frase que evoquei acima saiu da boca de um desbocado algarvio que é o detentor actual do cargo público mais elevado e honorífico - mas que é tão copiosamente desonrado - que entre nós existe e que é por voto directo do povo outorgado.

A minha amiga não pôde suportar tal visão. E repartiu umas moedas do pouco que lhe emprestei para que aquela pobre senhora tivesse também, como nós todos, a sopa que a reconfortaria. Houve algum receio que o seu gesto fosse mal recebido… mas depressa ouvi um "Obrigado, minha filha; Deus te abençoe.", que me sossegou.

A boca do natural de Boliqueime que citei atrás tem-se mantido calada, nos últimos dias… O que é natural. É um homem que teve educação superior em economia, numa das melhores universidades do Reino Unido. E anda tratando agora de economizar as palavras, que às vezes esbanjá-las sai bem caro!…

E depois, talvez também escute as palavras de sabedoria de outro conterrâneo seu, António Aleixo*. Que embora se diga que seria bem menos letrado que o primeiro, talvez o batesse largamente aos pontos em sensibilidade, humanitarismo e sagacidade. São do nosso Aleixo, justamente, estas duas quadras que se seguem:

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do Mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.

Se o presidente da república Cavaco Silva lesse este blog, talvez lhe recomendasse a mesma lição de moral que o nosso actual primeiro ministro, Pedro Passos Coelho, quis dar aos portugueses nesta era de folia desautorizada ao povo: "Não sejam piegas!…"
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* Para consultar uma resumida biografia de António Aleixo, vide um recente post num outro blog meu, clicando aqui.

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