domingo, 31 de dezembro de 2017

• A passagem de ano

Não há um “Antes e Depois” na noite de passagem de ano. Nada muda. Absolutamente nada.

É só uma paragem forçada. É um virar de folha de calendário igual ás outras todas mas que queremos, por convenção, que seja diferente de todas as outras. À força toda.

Os verdadeiros “Antes e Depois” tanto podem acontecer no dia 31 de Dezembro como no dia 1 de Janeiro como em todos os outros 363 dias do ano.

Um grande incêndio, a descoberta de uma nova mina de ouro ou diamantes, um terramoto avassalador, a definitiva cura ou erradicação de uma doença, um tsunami diluviano, uma revolução social, o nascimento de um novo Messias…

Tudo isto pode sobrevir em qualquer altura. O destino não espera por datas específicas determinadas pelos humanos. 

E por falar em nascimentos… Cada nascimento, happening feliz, implica anos mais tarde uma morte a mais, evento infeliz.

Todos ouvimos no dia 1 de Janeiro as notícias de quem foi o primeiro bebé do ano. Mas já alguma vez ouviram uma vez só algum noticiário que nos informasse quem foi o último homem a falecer o mais perto possível da meia-noite dum dia 31 de Dezembro? A última morte do ano que também morre num segundo?…

Ninguém desejará ficar em último lugar nessa corrida. Até porque ninguém dará pela sua partida. São os falecidos em que menos gente repara. Estamos todos distraídos a olhar fixamente para os ponteiros do relógio. Que não se mexem de forma nada diferente do resto do ano, afinal de contas…

Nada muda nesse segundo em que se atingem as 24 horas de 31 de Dezembro e começa um novo ciclo com o mesmo número de horas, exactamente igual.

Mas as pessoas querem todas parar para sonhar uma beka. Deixemo-las pois festejar e crer na ilusão que algo vai mudar sem a sua própria acção e determinação. Que haverá algum dedo divino mais atento ao calendário, quiçá.

O pior é que os actos divinos costumam ser caprichosos… Tanto dão para um lado como para o outro. Tanto nos podem bafejar com alegria desmedida como nos dar provas que shit happens, too. De quando em vez. E em grande.

Para mim, tudo mudou, há dois anos atrás. Não no dia primeiro do ano mas quase a meio desse 2015. E ainda tive de esperar o princípio do último trimestre para essa mudança se materializar.

Portanto, o “Antes e Depois” de cada um de nós não tem de ser obrigatoriamente na noite de passagem do ano.

Mas a malta quer toda fingir na vigília dessa madrugada que vai correr tudo bem daqui para a frente, não é?… Vamos lá então fingir, pois!…  

"Populus vult decipi, ergo decipiatur", já lá dizia Quintus Aurelius Stultus, senador romano...

Eu só queria mesmo - já agora que é noite de formular desejos - era ter esse alguém a meu lado com quem mais gostaria de partilhar uma flute de champagne. Ou um belo dum hot glõgi.

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